Entrevista com Robson Ortlibas

 

RM: Ricardo Marques

RO: Robson Ortlibas

 

RM: Olá, Robson, muito obrigado por dividir um pouco da sua experiência com os leitores do nosso blog. Você e eu trabalhamos juntos em obras incríveis de Bunin, Briussov, Beliáev, Zamiátin, Andreiev e Isaac Bábel. Dá pra dizer que existe vida além de Tolstói e Dostoiévski? Nós sabemos que sim, mas como você convenceria um editor mais resistente a apostar nesses outros nomes?

R.O: Antes de dizer qualquer coisa, acho necessário dizer que Tolstói é o meu autor russo favorito e que Dostoiévski faz parte do panteão dos grandes gênios da literatura mundial. Dito isso, sim, há muita vida além destes dois autores e, digo mais, vida inteligente. Para além dos nomes que você citou, há diversas autoras e autores, desde os menos conhecidos do público brasileiro aos mais conhecidos mundialmente. Considero mostrar estes grandes autores russos parte do meu trabalho. Há muita coisa genial, e acredito que os leitores precisam ter acesso a tudo isso.

Quanto a convencer um editor, sabemos que não é fácil. Editores enxergam o livro como um produto – ele é mesmo um produto – e, como tal, precisa ter apelo comercial. Então, tentaria mostrar a beleza das obras dos demais autores russos e, assim, tentar convencê-lo. Acredito que venho conseguindo, um passo de cada vez, mas tenho obtido alguns resultados.

RM: Em projetos como Rosa de Jericó e Outros Contos, Berlin, 1925, A Visão, O Abismo e Outros Contos e Meu Primeiro Ganso, desenvolvemos uma dinâmica positiva entre tradutor e revisor. Como você enxerga essa parceria de modo geral? Infelizmente, sabemos que esta relação nem sempre é harmoniosa.

R.O: Não apenas no mercado editorial, mas na área da tradução como um todo, é muito raro o tradutor ter acesso aos revisores. Sinceramente, não entendo o motivo pelo qual os gerentes não permitem esse contato. Acredito que é apenas um desperdício de tempo e dinheiro. Como você citou, trabalhamos em diversas obras juntos e sempre tivemos esse contato direto. Sem dúvida, todo mundo ganha: o tradutor, o revisor, o cliente e, principalmente, o leitor. Este terá em suas mãos o resultado de um trabalho feito realmente em conjunto. Isso reflete muito no trabalho final.

RM: Traduzir clássicos no Brasil hoje parece cada vez mais desafiador: pouco tempo, um catálogo saturado e competição predatória. Do seu ponto de vista, quais são os maiores obstáculos do trabalho com tradução de literatura clássica?

R.O: Essa sua pergunta tem a ver com a primeira. O mercado editorial olha apenas para Tolstói e Dostoiévski quando se trata de literatura russa. Isso torna o mercado muito saturado e até cansativo para quem trabalha nesta área.

A competição, falando da tradução de literatura russa, não é tão grande quanto nas demais literaturas. No entanto, há pessoas dispostas a fazer por qualquer valor, até de graça, apenas para conseguir entrar no mercado. Considero um grande tiro no pé. Costumo dizer que a qualidade do seu trabalho é diretamente proporcional ao que você cobra. Traduzir literatura russa é um trabalho descomunal, você não consegue nem deve fazê-lo por um valor qualquer. Você precisa ter atenção total ao projeto, ele toma conta da sua vida naquele momento.

RM: Nosso trabalho mais recente envolve um livro do Leonid Andreiev (O Abismo e Outros Contos) e eu fiquei realmente impactado com a escrita dele. Fale um pouco sobre este autor ainda tão inexplorado no Brasil.

RO: O: Tive contato com a obra de Leonid Andreiev em 2012, ainda não trabalhava com tradução de língua russa, mas já lia a literatura em sua língua original. A primeira obra que li foi “O governador” e fiquei impactado com sua escrita. Na época, pareceu-me um misto de Poe com Dostoiévski e a beleza da escrita de Tolstói. Após traduzir O abismo e outros contos, tive essa certeza e mais: Andreiev aborda a existência humana de uma maneira que você nunca mais se sente a mesma pessoa após lê-lo. Diria que é um divisor de águas. Digo sem hesitar que O abismo e outros contos foi meu trabalho mais desafiador até hoje, mesmo tendo traduzido Guerra e Paz, O idiota e Rosa de Jericó e outros contos, que também foram trabalhos que exigiram bastante de mim.

RM: Há alguns anos, trabalhamos juntos em “Françoise”, de Liev Tolstói. O conto é incrível, com muitas camadas. Fale um pouco sobre este texto.

R.O: Como disse anteriormente, Tolstói é meu autor favorito. Assim, estou sempre em busca de algo dele para ler ou reler. Nessa busca, acabo encontrando textos que julgo ser interessante traduzir, seja para que o público conheça, seja para praticar o ato tradutório. Faço isso constantemente. Descubro algum autor e escolho alguma obra, geralmente um conto, e o traduzo, a fim de conhecer seu estilo, sua escrita e adquirir a “expertise” de traduzir aquele autor. Faz parte da constante evolução como profissional.

RM: Robson, além de tradutor experiente e renomado, você é um russista. Explique o que significa o termo “russista”.

R.O: Russista é simplesmente alguém que trabalha e/ou pesquisa com algo relacionado à cultura, língua, costumes, política, enfim, algo ligado à Rússia. O que é diferente de “russófilo”, que é apenas um entusiasta, um fã de algo relacionado à Rússia. Desta forma, considero-me um russista, já que pesquiso e trabalho com o idioma, religião, política, cultura, costumes etc.

RM: Robson, foi um prazer falar com você. Obrigado por nos passar um pouco da sua experiência e conhecimento sobre a língua e cultura russa. Trabalhar ao seu lado é sempre um aprendizado. Espero que venham novos desafios em breve.

RO: Eu só tenho a agradecer a você. Trabalhar contigo é sempre um aprendizado e um enorme prazer, especialmente pelo seu amor pelo texto e sua preocupação com ele e especialmente com o leitor. É exatamente isso que torna um imenso prazer trabalhar contigo.

Quanto aos novos desafios, eles existem, estão por toda parte e esperando por você. É só falar comigo.

 

MINICURRÍCULO:

Robson Ortlibas é tradutor de russo, eslavo eclesiástico e inglês para o português, palestrante e russista. Tem especializações em “Análise do Discurso em Língua Russa”, “História da Rússia”, “Língua Russa” e “Literatura Russa”. Traduziu diversas obras de autores russos como Liev Tolstói, Fiódor Dostoiévski, Anton Tchékhov, Ivan Bunin, Aleksandr Beliáev, Evguêni Zamiátin, Isaac Bábel, Leonid Andreiev, entre outros.

 

Ricardo Marques

É editor, tradutor e revisor textual. Trabalhou diretamente em mais de 150 obras, com destaque para dezenas de clássicos da literatura estrangeira e nacional.

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